Zezus

Veio ela, com o Jesus de madeira embrulhando uma canela em pau, era um presente que ela precisava me dar, “mas fecha os olhos que é surpresa”.

– Ai, que lindo Sara, um Jesus, é um presente especial.
– Nãão, tá dentro do Zezus,
– Ah, legal, mas na verdade, o Jesus que tá dentro do presente, porque ele é um símbolo de amor, ele tá dentro de nós.
– É, mas cada um tem o seu né?
– Ãhn??
– Cada um tem o seu né, você tem o seu Zezus, eu tenho meu, o papai tem o dele, cada um tem o seu, do seu jeito.

Coisa!

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Mato ou morro?

Os dois. Muita saudade do morro, preciso ir lá ver as crias no seu estado mais natural possível. É nesses momentos que a gente reafirma o que tem na essência, é tão óbvio e verdadeiro que chega a dar… coragem.


Foto-sentimento do dia.

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Mamãe eu quero

Por influência da minha super parceira de profissão, de vida e de crianaestrada Lú Zonta estava furungando no Mamíferas, e li esse artigo aqui (clica!), da convidada Raquel, que fala sobre amamentar crias maiores estando grávida ou com um recém nascido. Gostei do texto, mas tem alguns pontos que queria comentar. Porque acho que até no lado bom a gente tem que cuidar pra não ser radical. A gente sempre tenta impor nossa vontade, nossas convicções, oras, é óbvio, vivemos o que acreditamos. Mas tudo tem os dois lados e é importante estar sempre atento. Nada de delimitar data e hora pra desmamar, mas perceber quando é hora de subir um degrau, ir à frente. E quando é a NOSSA hora de tirar do peito. Por que quer coisa mais gostosa que aquele bichinho grudado em nós, trocando calor? Eu poderia ficar assim foréva, é das sensações mais verdadeiras que já senti. Mas tudo que é bom acaba. Tudo que é ruim, também acaba. Tudo é impermanente, menos a consciência.

O que comentei com a Raquel lá no Mamíferas é que tem um ponto do texto que resume exatamente que eu penso, há um tempo para cada criança e é preciso respeitá-lo. Mas mesmo assim, precisamos estar atentas a outras questões, “cada um ter seu tempo” tem que ser um norteador, mas não em absoluto. Porque cabe a nós também ajudar na construção emocional, de acordo com as etapas que eles vão vencendo. Até hoje não é difícil pra nós tomar algumas decisões? Dar alguns passos? Seguir em frente com coragem? Passar etapas é difícil, mas podemos incentivar, encorajar, isso só vai fortalecer a estima e ajudá-los a se situar no seu tempo. Existem milhares de formas para trocar amor e carinho, que podem ser alternadas, não acho legal uma criança de 5 anos mamando por exemplo. Como fica a sexualidade? E a independência de ambos? Isso fortalece ou desestabiliza? Nem vou entrar na questão nutricional, só na emocional.
A gente tem que olhar pra dentro de nós também e perguntar por que estamos mantendo essa prática tão além (aí entra o NOSSO tempo, será que estamos prontos pra desmamar?). É gostoso demais acolher, mas cabe a nós também empurrar pro vôo, mesmo que doa um pouquinho, mesmo que dê medo, mesmo que aaain, é difícil porra! Mas vai, de pouquinho em pouquinho, sem movimentos bruscos, com muito amor e naturalidade, mas firmeza e decisão. Porque o limite e a percepção também são nossas responsabilidades, tanto quanto viver o amor na plenitude.

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Libras emocionantes

Hoje eu tô muito emocionada, deve ser a lua cheia, que deixa a gente assim tudo-ao-mesmo-tempo-agora e com uma vontade de viver que não cabe nesses órgãos de sentido que Deus nos deu.

Tá, mas ia dizer que hoje de manhã (e as manhãs e os banhos são um tempo super especial de criatividade-e-conversa-e-observação dos pequenos) a Sara Lee, no seu monólogo matinal, estava com aqueles olhos enormes cheia de gestos pra cima de mim e eu achei graça, bem boba e ingênua. Ela, muito objetiva, perguntou se eu não ia responder:

– Do que você tá rindo? Você não vai responder?
– Responder o que Sara?
– Ué, você não sabe falar em libras mamãe??

Pof, morri.

Sim, eles aprendem a linguagem de sinais na escola. E um dia eu chorei copiosamente quando assisti, numa festa de encerramento de ano, uma sala de 30 crianças sob regência de um professor surdo “cantarem” uma música inteira, em forma de coral, através das libras.

E eu resolvi que sim, eu preciso aprender libras.
Nunca é tarde para aprender libras.
Nunca é cedo para aprender amor.

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É surfe merrrmo!!!

O astral do dia é surfe merrmo, um brasileiro acabou de levar o título na terceira etapa do World Tour, circuito que reuniu a elite do surfe mundial aqui do lado de casa, na popular “zimba” (ou Imbituba, SC). É emocionante ver um brazuca (Jadson André) ganhar do Kelly. Tão emocionante quanto ver a molecadinha iniciando na brincadeira, mais que saudável, que une a atividade física ao contato com a natureza. Cria na estrada, que a mãe acolhe!


Davi, 10, Praia Brava. Conectado com o TODO.

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Sensacional!


Gente, acabo de ler um dos melhores textos já publicados no http://www.mamiferas.blogspot.com, do qual sou leitora e fã incondicional. Trata da importância das atitudes pensadas e conscientes que tomamos em relação a nossos filhos. Eu também não tenho paciência para dialogar algumas coisas. Uma delas é o tempo certo (se que é existe um tempo certo) para parar de amamentar. O Davi (de quase 1 ano e dois meses) ainda mama e muito escuto por aí coisas do tipo “mas um bebê tão grande ainda mama?”, como se houvesse um prazo limite para dar o peito (e todo o carinho, aconchego e anticorpos que vêm junto com ele). Segue então o texto SENSACIONAL e imperdível da Tata (colunista do Mamíferas).

Sobreviver NÃO é o bastante…

Muitas vezes, quando converso sobre criação de filhos, escolhas, caminhos, ouço argumentos do tipo: “ah, meus três filhos nasceram de cesárea e sobreviveram!”, “ah, meu filho não mamou nem um mês e taí, firme e forte!!”, “ah, eu apanhei dos meus pais quando criança e sobrevivi, não tenho traumas!!”, “ah, meus filhos comiam bala, pirulito, refrigerante à vontade e estão aí, vivinhos da silva!!”. Perco a vontade de discutir diante de um argumento desses, juro. Tão descabido, tão raso, tão simplório.

Fico me perguntando: sobreviver é o bastante? Na nossa vida diária de escolhas e decisões como pais e mães, nosso parâmetro deve ser apenas optar pelo que não causará lesões óbvias, permanentes e irreversíveis em nossos filhos? Devemos nos contentar em garantir que eles ‘sobrevivam’ às nossas escolhas e aos caminhos pelos quais os conduzimos?

Sim, bebês nascem de cesáreas desnecessáreas e não morrem por isso. Bebês deixam de ser amamentados, vivem à base de chupeta e mamadeira, são afastados do colo e do carinho de suas mães desde muito cedo, e sobrevivem. Crianças são agredidas física e verbalmente por seus pais e cuidadores, e seguem vivendo. Crianças comem porcarias a torto e a direito, adquirem péssimos hábitos alimentares que os perseguirão pela vida toda, e seguem aí, vivinhos da silva. Crianças são desrespeitadas, negligenciadas, desconsideradas a todo momento, e sobrevivem a tudo isso. Sim, é assim mesmo. Crianças são seres muito resilientes. Eles sobrevivem a quase tudo.

Mas e daí? Isso é o bastante? Para mim, não. Eu não quero fazer escolhas às quais minhas filhas possam simplesmente ‘sobreviver’. Não, isso não me basta, eu desejo mais para elas. Eu quero fazer o meu melhor, e não me contento com nada menos do que isso. E não porque elas corram riscos seríssimos de traumatizar-se para o resto da vida ao meu menor deslize ou descaminho, mas porque elas merecem mais do que o mínimo necessário à simples ‘sobrevivência’. Elas merecem que eu busque sempre as melhores opções, escolha os caminhos com critério, com consciência, com responsabilidade. Elas merecem que eu opte, questione, reflita, e não siga agindo automaticamente, sem pensar, apenas porque, afinal, ‘ninguém morre por isso’.

Acho fundamental que tenhamos em mente que nossos filhos seguirão vivendo, crescendo, se desenvolvendo, saudáveis e felizes, mesmo que a gente não consiga fazer o ideal 100% do tempo (e alguém consegue??). Mas acho igualmente importante que a gente não transforme essa idéia em muleta, para se acomodar e deixar de dar o melhor de si a cada momento, porque afinal, seja como for, ‘eles vão sobreviver’.

Eu não quero ser uma mãe perfeita, sei que erro, já errei e ainda vou errar muito, porque faz parte da caminhada. Mas meu coração está tranquilo, porque sei que todas as vezes que cometi um erro, foi procurando acertar. Sei que errei tentando fazer o melhor, e não por omissão, por desistência ou por achar que encontrar a melhor opção não fosse assim tão importante.

E não me permito esquecer, nem por um instante, que todas as atitudes que eu tomo terão consequências, sim. Porque todas as pequenas vivências do dia a dia vão fazendo da criança o indivíduo que ela será, no futuro. Isso não significa neurotizar a convivência e viver medindo palavras e atitudes a cada segundo, nem fazer da vida diária um ambiente milimetricamente planejado e controlado para evitar traumas futuros. Significa apenas estar consciente da responsabilidade que o papel de pais nos traz, a todo momento.

Eu não abdico dessa responsabilidade. Porque para mim, sobreviver não é o bastante, nem nunca será. E pra você?

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Um quintal


Não tem como a gente guardar tudo que lê não é mesmo? Nem na cabeça, nem em prateleiras. Se vocês forem como eu, que não pode ficar à toa e já está procurando alguma coisa pra decodificar, fica difícil. Hoje o mundo tem muita informação, dentro disso, muita inutilidade, o que representa um risco incalculável de perda de tempo.

Mas também tem muita coisa legal e que dá vontade de compartilhar. Essa semana estava na manicure e li um artigo muito bom da Danuza Leão na revista Cláudia, que acho uma pobreza de espírito com aqueles manuais de enlouquecer seu homem na cama e 15 maneiras de ficar ‘sequinha’ pro verão. Mas sempre tem algo que dá pra garimpar, nesse caso o artigo da Danuza, de quem virei simpatizante e fã desde que li seu livro autobiográfico.

A internet colabora. Cheguei na redação, busquei no google (vanusa leão – quintal), encontrei e agora posso mostrar aqui pra quem não leu. Me identifiquei bastante, muito feliz, por ter um quintal de terra batida pras crias lembrarem daqui uns anos, quintal que vai fazer parte da sua mochilinha de ferramentas pra vida. E tem as coisas essenciais que ela cita, um abacateiro, uma goiabeira, árvores que não parecem ter sido plantadas mas sempre existido. Tem também pica pau e seu rastro de buracos simétricos e perfeitos no tronco de um ingazeiro. E uma coruja que senta no poste de luz. Uma família de aracuãs, pai, mãe e filho. Formigas. Insetos de todas as formas e tamanhos. E piolhos de cobra. E mosquitos, muitos. Lagartixas, gordas. Tem bananeira e bambu, deve ter cobra. Tem um balanço de corda e madeira e muita folha seca. Tem uma ducha pra lavar o pé, e tem as porcarias. Até uma quadra de basquete improvisada, segundo meu amigo Jota, ideal pra jogar ‘21’. Tem silêncio, luar, e nascer do sol, estrelas e céu rosa, nessa que é a época mais linda do mundo. Tem amigos, e crianças imundas e sorridentes correndo até anoitecer. Tem barulho de mar, tem barulho de vento, e tem também o entra e sai na correria para fazer as coisas do dia a dia, mas sempre tem o chegar em casa, bom, independente da hora. Tem o acordar sem pressa, e o mate argentino. Tem noite de queijos e vinhos, pizzada integral e um canto pra se esconder quando precisa ficar sozinho.

A gente sabe que não pode se apegar, expansão imobiliária, Praia Brava sendo engolida pelos gigantes, mas esses momentos-presentes que ficam pra sempre são presentes pra vida. Um dia tudo vai estar diferente, mas o que é de valor tá impresso na alma.
Só não tenho as galinhas, e se tivesse, não ia rolar o ritual da empregada matando e tirando as penas para fazer peteca.
Segue o texto então. Pensem em um quintal, e pensem na importância que as coisas vividas na infância têm pro resto da nossa existência.

Um quintal
Danuza Leão
Quando uma pessoa começa a melhorar de vida, pensa logo em comprar uma boa casa. E o que é uma boa casa? É preciso um jardim e uma piscina, imaginam os pais. Eles querem para as crianças uma infância saudável, com confortos que nunca tiveram, mas não pensam no principal: um quintal. Um quintal não precisa ser grande, e o chão deve ser de terra batida. Nele deve haver algumas árvores que não pareçam ter sido plantadas, mas sempre existido. Um abacateiro e uma goiabeira, de goiaba vermelha, são fundamentais. No fundo, um galinheiro tosco, com uma porta quebrada, para que as três ou quatro galinhas possam correr quando alguém quiser pegá-las. Nenhum computador levará uma criança ao deslumbramento que ela terá ao encontrar um ovo e segurá-lo, ainda quentinho. É o mistério da vida nas mãos dela, mais absoluto e mais simples do que qualquer livro de filosofia.
Um dia, a cozinheira avisa que vai matar uma galinha para o molho pardo. Os meninos pedem para ver a cena trágica; a mãe não quer, mas a empregada, acostumada, com o facão na mão, facilita. Se a galinha tiver dentro da barriga aquele monte de ovinhos, aí a lição de morte – e de vida – será ainda mais completa. E mais lições serão aprendidas quando alguém sugerir fazer uma peteca com as penas mais duras e algumas palhas de milho. Mas será que alguém sabe do que estou falando?
Voltando: esse quintal deve ser meio abandonado, mas muito limpo; duas vezes por dia a empregada, cantando bem alto, dá uma varrida. É importante também que haja um tanque para lavar o pé de alguma criança quando ela pisar descalça numa porcaria, e um varal com pregadores de roupa de madeira. Nesse lugar, não vai ter horta nem pomar organizado. Em compensação, é bom que exista do outro lado do muro uma enorme mangueira para que se possa praticar o melhor crime do mundo: roubar as frutas do vizinho. Nos fundos de um quintal, deve haver também uma touceira de bananeiras ou bambus e, claro, um adulto dizendo sempre para tomar cuidado, pois ali pode ter uma cobra. Não há infância que se preze sem medo de cobra. Quando as goiabas começam a crescer, fica todo mundo de olho até a primeira delas estar no ponto para ser arrancada e mordida ali mesmo, sem lavar. E que sensação terrível quando se vê o bicho da goiaba se mexendo. Aí, sem que ninguém precise dizer nada, você começa a aprender que a vida é assim: ou se compra uma goiaba bonita, mas sem gosto, ou se espera com paciência ela amadurecer no pé até desfrutar o supremo prazer de dar aquela dentada – com direito a bicho e tudo.
Mas o tempo voa. De repente você se sente só, abre o caderno de telefones e percebe sua pouca afinidade com os nomes que estão lá, que tem vivido uma vida que não tem nada a ver e começa a procurar um sentido para as coisas. Não encontra resposta, claro, mas um dia está no trânsito, vê um terreno baldio, se lembra daquele quintal no qual não pensa há anos e percebe que essa é a lembrança mais importante e mais feliz de sua vida. E passa a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, mas ninguém sabe.

Danuza Leão é cronista, autora de vários livros, entre os quais Na Sala com Danuza 2 (ARX) e Quase Tudo (Cia. das Letras)

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